
Em uma sociedade que confunde trabalho e produtividade, a necessidade de produzir sempre foi antagonista do desejo de criar. O que resta de centelha humana, de criatividade possível, em um ser privado do sono às seis horas a cada manhã, que se equilibra nos trens suburbanos, ensurdecido pelo ruído das máquinas, lixiviado, cozido a vapor pelas jornadas, controlado, os gestos privados de sentido, e jogado ao fim do dia nos saguões das estações, catedrais de partida para o inferno das semanas e o ínfimo paraíso dos finais de semana, onde a multidão comunga a fadiga e o embrutecimento? Da adolescência à aposentadoria, nos ciclos de vinte e quatro horas ouve-se o uniforme estilhaçar de vidraças: rachadura da repetição mecânica, rachadura do tempo-é-dinheiro, rachadura da submissão aos chefes, rachadura do tédio, rachadura da fadiga. Da força viva esmigalhada brutalmente ao rasgo escancarado da velhice, a vida se racha por todos lados sob os golpes do trabalho forçado. Jamais uma civilização atingiu tal grau de desprezo pela vida; afogada no desgosto, jamais uma geração experimentou tal raiva de viver.
O tripalium era um instrumento de tortura. Labor significa "tormento". Há uma certa leviandade no esquecimento da origem das palavras "trabalho" e "labor". Os nobres tinham ao menos a memória de sua dignidade, assim como da indignidade que afligia os seus servos. O desprezo aristocrático pelo trabalho refletia o desprezo do senhor pelas classes dominadas; o trabalho era a expiação à qual foram condenadas por toda a eternidade por um decreto divino, que os queria, por razões impenetráveis, inferiores. O trabalho se inscrevia, entre as sanções da Providência, como a punição do pobre, e, uma vez que ela era também meio de salvação futura, uma tal punição podia se revestir de satisfação.
Raoul Vaneigem
PIERO UMILIANI & CHET BAKER - ITALIAN MOVIES - 1958~1962http://www.mediafire.com/?tm9pahwekzjzypx











8 Comments:
mirrors:
http://www.filefactory.com/file/aheg2h3/n/PUCHBITAMO958_rar
http://www.badongo.com/pt/file/16080283
De qual livro foi tirado esse trecho? E onde posso arrumá-lo pra ler?
Joju, o trecho foi extraído do ensaio "A Decadência do Trabalho", escrito em 1967 pelo Vaneigem, publicado no Brasil em seu livro "A Arte de Viver para as Novas Gerações", lançado pela editora Conrad.
Original em francês:
http://arikel.free.fr/aides/vaneigem/traite-5.html
Viva o Cristo Rey!
Acabei de ver no canal Cultura um programa sobre a alimentação no BRASIL.
segundo uma "pesquisa" (não sei se é verdadeira) o Brasil é o quarto país no mundo que mais produz alimentos e o sexto país com a maior taxa de subnutrição.
esse programa também informou que a quantidade de alimentos que é desperdiçada por dia no Brasil daria para alimentar 17 milhões de pessoas (café, almoço e janta).
antes mesmo que o programa terminasse desliguei a televisão e fui comer um gigantesco e saboroso sanduíche de pernil.
Viva o Cristo Rey!
Eu agradeço a Deus por poder me fartar neste país de miseraveis e subnutridos.
Agora estou com a pança cheia, tomando uma breja e degustando um cigarro.
Viva o Cristo Rey!
DEUS é Grande!
Aquele programa realmente abriu meu apetite... não sei se as informações eram verdadeiras, mas que elas me deram uma vontade de me empanturrar de comida é inegável...
Refletindo sobre o conteúdo das informações do programa exibido na tv cultura, chego à conclusão de que o sofrimento humano medido na escala da infinitude divina é nulo.
Toda miséria é transitória, mas o espírito é imortal e perene. A realidade suprema do universo é o Bem, a Verdade, a Justiça.
O mal, a desordem, a insensatez da economia moderna se situa na periferia do real.
O núcleo da existência é a soberana e divina Presença.
Saber disso é não se deixar alarmar pelos discursos que apresentam a realidade sob uma ótica de horror, violência e iniquidade.
Deus é MAIS!
O Triunfo é de Deus!
Glória a Deus nas alturas!
Três vezes SANTO é o Senhor!
Valeu Fiume
tripalium pode ser, do latim, três paus.
Mto bom som
Valeu Fiume
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